Projeto Carbioma

Agricultura sustentável no Cerrado e
na transição Cerrado-Amazônia

A mudança do clima causada pela emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera é uma realidade que pode afetar a natureza e repercutir sobre o agronegócio e a pequena produção familiar, especialmente, em grandes regiões produtoras, como é o caso do bioma Cerrado e da zona de transição Cerrado-Amazônia.

Por sua vez, a própria atividade agrícola e pecuária é vista em diversas situações como uma das principais fontes emissoras de GEE, devido ao desmatamento e ao modo de exploração dos recursos naturais, contribuindo também para o aquecimento global.

Entretanto, sistemas de produção conservacionistas no meio rural têm grande potencial para reduzir impactos negativos ao ambiente, como é o caso do plantio direto e da integração lavoura, pecuária e floresta.

A esse respeito, o estudo acerca do manejo do solo, levando-se em conta fatores físicos, químicos e biológicos, pode aprimorar a compreensão da dinâmica de fluxos de carbono e de nitrogênio, emitidos pelo mesmo à atmosfera na forma de dióxido de carbono, óxido nitroso e metano, todos sabidamente relacionados à mudança do clima.      

Além disso, uma investigação científica mais ampla sobre as ações e estratégias de agentes econômicos, sociais e políticos, que influenciam no desenvolvimento do meio rural, pode aumentar o entendimento sobre os pontos de vista divergentes na utilização de recursos naturais e sobre a atuação em conflitos socioambientais.      

Partindo dessas premissas, foi montado o Projeto Carbioma, que busca, por meio de uma rede de professores, pesquisadores, técnicos e produtores, gerar conhecimento acerca de diferentes fatores envolvidos na emissão de GEE e seu reflexo sobre a mudança do clima.   

Como resultado, o Projeto Carbioma almeja agregar novas informações para o meio científico e qualificar o debate em torno do aquecimento global, repercutindo na melhor fundamentação de argumentos em discussões de governo, em rodadas de negociação internacionais e em debates sobre a competitividade da economia brasileira, baseada na produção do campo.

Coordenadora do Projeto Carbioma
Beáta Emöke Madari

Contexto

O Cerrado é a segunda maior formação vegetal brasileira. Além de ser a savana tropical mais rica do mundo em biodiversidade, concentra um terço da biodiversidade nacional e 5% da flora e da fauna mundiais. Ocupa uma área de 204,7 milhões de hectares, sendo cerca de 24% da superfície do Brasil, englobando parte dos estados da Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Piauí, São Paulo, Tocantins, além do Distrito Federal.

No Cerrado, há 80 milhões de hectares, sob diferentes usos da terra, o que corresponde a 39,5% da sua área total. As duas classes de uso da terra mais representativas são as pastagens, com 26,5%, e as áreas agrícolas, com 10,5%.

A transformação do Cerrado em sistemas agrícolas tem provocado a degradação de extensas áreas, em consequência de sua exploração inadequada. No entanto, a exploração do bioma, que se baseou no cultivo intensivo e monocultor de grãos ou na criação de gado, está aos poucos se transformando num modelo produtivo mais forte, sustentável e, assim, mais competitivo.

Para atender à demanda crescente por alimentos e por bioenergia sem comprometer a sustentabilidade dos ecossistemas, é necessário desenvolver sistemas de manejo promotores da qualidade do solo, como o plantio direto e a integração lavoura, pecuária e floresta. Contudo, precisam ser melhor investigados para uma compreensão mais adequada de sua relação com a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).   

De outra parte, faz-se necessário também aumentar o entendimento acerca do desenvolvimento regional da zona de transição Cerrado-Amazônia. Sob o ponto de vista das relações sociais, é reconhecida a heterogeneidade das dinâmicas sócioterritoriais ao longo da BR-163, revelando uma diferenciação de interesses, de alianças e de redes de mercado. Os investimentos dirigidos para as diferentes localidades nesta rodovia, sobretudo de grandes empresas dos setores de pecuária, de agricultura intensiva (grãos) e de infraestrutura, têm apostado em modelos que elevaram as taxas de desmatamento, apesar da decretação de várias unidades de conservação.

Quanto às políticas que tem como objetivo ordenar o uso dos recursos naturais no Brasil, estudos apontam que elas partem do pressuposto de que há uma necessidade em racionalizar este uso em função de que o avanço predatório da terra tem tido um efeito devastador.

Sob a ação estatal de ordenamento territorial, pode-se citar o Plano Amazônia Sustentável da BR-163, especialmente o espaço formado por municípios localizados no Mato Grosso e no Pará, que tiveram mudanças importantes no padrão de uso da terra e de seus recursos (modo de gestão, tecnologia, investimentos) e que possuem obras prioritárias do Plano de Aceleração da Economia/PAC para a Amazônia.

Contudo, para a exequibilidade das políticas de ordenamento territorial, é necessário mapear os agentes econômicos e sociais, suas ações e sua capacidade econômica e de articulação política. Igualmente, é necessário identificar os arranjos institucionais capazes de lidar com questões crônicas, tais como: situação fundiária e ilegalidade de direitos de propriedade, ação do poder público das várias esferas e a variação das motivações econômicas, conforme os custos de oportunidade e de mobilidade do capital.

Objetivo

O projeto Carbioma é composto por duas partes principais. Os estudos propostos relacionadas ao componente das ciências naturais visam investigar o desempenho ambiental dos diferentes sistemas de produção em nível de parcela ou de unidades demonstrativas. Por exemplo, investigando o potencial dos diferentes sistemas quanto à emissão de GEE e ao estoque de carbono, bem como seus processos biofísicos determinantes. Na seção das ciências humanas, prevê-se utilizar este conhecimento das medidas biofísicas, obtido em um contexto mais específico e isolado, e extrapolá-lo para uma escala ampla de paisagem e região que é o foco das intervenções de políticas públicas.

A pesquisa conjunta deve conduzir à construção de uma metodologia de análise e de descrição dos processos biofísicos integrados à compreensão da relação com as dinâmicas socioeconômicas referidas ao balanço de carbono, fluxos de gases do efeito estufa (agricultura baixo carbono).

Trata-se, assim, de uma colaboração científica similar, embora em menor escala, ao trabalho da rede internacional de desenvolvimento de sistemas modelagem de impactos climáticos do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP), que analisa os processos químicos, físicos e biológicos que definem a dinâmica do ecossistema terrestre na mudança global, e do Programa Internacional da Dimensão Humana nas Mudanças Globais (IHDP), que analisa o papel das atividades do homem nessas mudanças.

 

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